segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Será que é Natal?

A árvore foi montada com antecedência, os presentes foram comprados no shopping lotado, Luciano Bruno fez-se presente em meu rádio, a hora no salão de beleza foi marcada, a roupa nova foi vestida, a casa já está arrumada, a ceia está posta à mesa, mas ainda assim, não sinto o espírito de natal em mim; como se hoje fosse apenas uma reunião familiar em trajes mais formais.

Talvez sejam as férias atrasadas, devido ao desgastante vestibular, as culpadas pelo meu desencanto noturno ou o cansaço extremo dos estudos diários ou então, seja a ausência de um abraço amigo que há meses falta-me. Certamente, deve ser este o maior responsável por esse meu sorriso amargo de natal.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Páginas reprisadas

Na tarde de ontem, enquanto descansava minha mente dos estudos diários assistindo aos programas da TV aberta, escutei a notícia de que estava ocorrendo um plebiscito na Venezuela – Chávez propôs um projeto de reforma constitucional e, utilizando recursos democráticos, tentou mascarar um possível golpe de estado.

Posso não ter conhecimento de suas reais intenções, mas ao ver as possíveis propostas instaladas em seu governo, entre elas: infinitas reeleições e a censura da imprensa em caso de crise, pensei estar visualizando o golpe de 1937 quando Getúlio mantém-se no poder e implanta o Estado Novo através de um forjado plano de revolução comunista.

No mesmo dia, durante o pronunciamento do presidente Luís Inácio Lula da Silva sobre o lançamento da TV digital, senti-me envelhecer precocemente, imaginei-me nos anos 70 na primeira transmissão da imagem colorida pela televisão.

Presenciar fatos que, certamente, estarão nos livros de histórias daqui a alguns anos é estranhamente satisfatório. Quando os folheamos, os acontecimentos de décadas passadas nos parecem tão distantes, tão irreais – às vezes questionando a possibilidade de ter ocorrido tantas barbaridades no mundo- - chegs que demoro a registrar que faz apenas 68 anos que nos deparamos com a Primeira Guerra Mundial, 62 anos da explosão da bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki, 20 anos do acidente radioativo em Goiânia, 218 da Revolução Francesa e 185 anos da “Independência” do Brasil.

Apesar do espelho não revelar cabelos brancos ou rugas, sinto já estar presente em longas páginas da história.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Bravo!

O tom alaranjado da tarde vislumbrou a bela dama de preto que atravessava o jardim de sua casa. Sutilmente, entrou no carro estacionado e, em um beijo envolvente, cumprimentou o seu amado.

O pôr-do-sol visto no carro, a caminho do restaurante, era encantador, embora não pudesse ouvir o som do mar confrontando-se com as pedras à beira-mar, a música ambiente proporcionado pelo som interno amenizava as inúmeras buzinas da rua.

Aurora olhou no retrovisor e retocou o batom, incandescendo o vermelho da boca contrastando, assim, com a sua pele alva e o seu sorriso sedutor, enquanto, ao seu lado, Benjamin, seu noivo, soltava leves sopros, indicando sua ansiedade. Contorcia o corpo, tentando ao máximo inclinar a cabeça, a fim de captar algo que justificasse tal tráfego, amarrotando, consequentemente, a camisa branca recém-comprada.

Em um carro próximo, uma linda morena olhava aflita os ponteiros do relógio, o qual revelava o seu atraso. Além do bocejo contido, aquela jovem senhora imaginava a feição triste de sua filha Amélia, sozinha no banco do pátio do colégio, olhando para cada veículo da rua que se aproximava, desejando ser o de sua mãe o próximo a passar.

Há alguns metros daqueles automóveis, um jovem tornou a rua o seu palco. Era inconstante, mínimo e distraído, geralmente, o seu público, mas nesta tarde, sem motivo aparente, um maior reconhecimento de seu talento fez-se presente.

Apresentou os seus truques e malabares e, a cada sorriso cativado, estimulava-se a prosseguir com a sua arte. O sinal de trânsito não era mais um alerta para a passagem dos carros e sim, holofotes de seu circo a céu aberto.

Um telefonema foi dado por um alguém da multidão, a ordem precisava ser restabelecida, o show tinha de terminar.

Minutos depois, o aprendiz de circo foi retirado com voracidade pela força da polícia e antes de inclinarem sua cabeça, para entrar no carro, olhou brevemente para trás e exibiu um grandioso sorriso. Não houve esmolas, ele estava sendo preso, mas não importava, pois havia aplausos e isso bastava para esse eterno palhaço.

- Jornal do Leitor / O Povo -
 
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