O tilintar do sino dos ventos camuflou o barulho dos carros que
passavam vorazes no lado de fora do Instituto. A voz calma de Ved e a
sua paciência em responder em detalhes as questões apresentadas
amenizaram os telefonemas que interromperam a entrevista. O modo como se
sentou mostrou a flexibilidade adquirida pelos 34 anos de prática de
yôga. O convite, ao final da conversa, para fazer uma aula foi tentador.
Comparando com uma comida, ela diz que não há como descrever como é o
sabor, sem experimentar o alimento. Assim é o yôga. Para realmente
vermos os resultados e acreditarmos na sua influência para a melhoria de
vida, devemos praticá-lo, saboreá-lo.
Ved Arora, aos seus 68 anos, mantém-se revigorada ao compartilhar
seus ensinamento de yôga e ver os resultados espelhados através do
bem-estar dos seus alunos. Desde 1976, ela dirige o Instituto
Vivekananda ao lado de seu marido Harbans Arora, que faz atendimentos de
terapias quânticas, e dá aulas juntamente com sua filha Subhashni e
mais dois professores, Tadeu Andrade e Rose do Nascimento.
Aliando a meditação, as asanas (as posturas de yôga) e exercícios
respiratórios em suas aulas, o espaço é dedicado para jovens, adultos e
idosos que almejam um melhor equilíbrio físico e mental.
Nada de atividades mecânicas ou ofertas de medidas físicas perfeitas,
o yôga propõe integrar corpo, mente e espírito para vitalizar e
promover um melhor funcionamento do organismo. Sendo em uma hora de
aula, sob a orientação do professor, ou no ambiente de trabalho e em
casa, ao dedicar apenas alguns minutos do dia para o autoconhecimento,
relaxamento e alongamentos.
Qual a função do yôga?
A palavra própria yôga veio da língua sânscrito, a língua mais antiga
da Índia, e veio da raiz da palavra sânscrito yuj, que significa unir.
Então Yôga, podemos dizer, é união. Quando falamos de união, é em todos
os níveis. Nós temos o corpo, a mente e o espírito, então, é o trabalho
máximo de integração entre eles. São várias as coisas que fazemos na
prática no nível físico, como chamamos as posturas de yôga, que
trabalham de várias formas o corpo todo, mas não só para remodelar o
corpo, mas como para ter uma boa respiração, um bom funcionamento no
nível glandular, uma boa circulação, mais flexibilidade, uma boa
postura, maior irrigação cerebral. Então várias posturas trabalham de
várias formas para ter uma boa saúde, não só nível físico, como também
no nível mais interno.
Muitas pessoas se preocupam com o exercício físico, o yôga supre essa necessidade?
Quando veio para o ocidente, foi mais pela necessidade de melhorar a
saúde psicossomática, porque no ocidente a gente vê que a tecnologia, a
medicina avançou muito, mas ainda não conquistou a saúde do ser humano.
Então a busca foi mais em como eliminar os problemas de saúde nesse
nível psicossomático. E há agora também uma parte muito forte na prática
do yôga no lado físico, mas isso é apenas como se fosse construir um
alicerce para trabalhar um outro lado mental, espiritual. Como no
ocidente há uma preocupação muito forte com esse lado físico, então
várias as modalidades hoje estão trabalhando muito esse lado. E, na
realidade, na prática do yôga, isso é apenas uma oitava parte do yôga
integral. Eles dizem que se você quer construir um prédio, você tem que
começar do alicerce, se o alicerce não está forte, não está estável,
esse prédio cai. O corpo é também essa máquina que a gente usa para
tudo. Qualquer coisa que você quer realizar, fazer, você precisa estar
com uma boa saúde. Mas só o físico não é tudo. Se eu não estou bem
mentalmente, emocionalmente, se eu não estou dormindo bem, se estou
nervoso, irritado e inquieto, aí só o bom físico não vai me dá aquilo
que eu preciso.
Mas como você trata a parte mental?
Nos exercícios de yôga a gente faz com a concentração, respiração,
percepção, visualização, não mecanicamente como na ginástica. Então,
quando você vai trabalhando o corpo de uma forma mais consciente, já vai
trabalhando esse outro lado. E depois tem bastante trabalho
respiratório na prática de yôga, que é uma coisa fundamental para
adquirir uma boa saúde psicofísica. A respiração podemos dizer que é a
vida. A gente pode viver muito tempo sem comer, mas sem respirar a gente
não vive. Então, essa parte respiratória é uma coisa fundamental que
ajuda para se energizar, como que para acalmar. Ajuda para melhorar o
equilíbrio até do sistema nervoso. Trabalhamos muito esse lado para
termos mais vigor, ter a clareza e mais capacidade mental, ao mesmo
tempo mais estabilidade e mais calma. E, depois, uma das coisas
importantíssimas nesse trabalho no yôga integral é a meditação. Quando a
gente já trabalha no nível físico e no nível respiratório, fazendo
sempre também um relaxamento como se fosse um relaxamento consciente,
você mesmo visualiza cada parte do corpo, você mesmo observa como estão
as suas ondas celebrais, até que aos poucos você sente que chegou num
momento em que você apaga espontaneamente. Você está acordado, está
consciente, mas está desligado, então o pouco que você consegue esse
desligamento na fase mental, conscientemente, você relaxa. Então, o
trabalho é mais no nível mental e esse trabalho no nível mental é
meditação todos os dias. A gente prepara o corpo, prepara esse lado
psíquico e depois vai trabalhando mais esse lado mental.
Você já conhecia o yôga? Por que você resolveu praticar só quando chegou ao Brasil?
Eu conhecia, mas não era praticante na Índia. Eu procurei mesmo pela
minha necessidade psicofísica, porque eu cheguei aqui – já tem 38 anos
-, vim grávida de sete meses, não falava português, não trabalhava, não
conhecia ninguém e eu já tinha problema crônico de enxaqueca quando era
aluna na universidade na Índia. Minha necessidade psicofísica que me
levou para buscar alguma coisa que me ajudasse. Estava tomando só os
remédios que o neurologista passou para as dores de cabeça que eu tinha
constantemente, que hoje não tomo mais. Nem pensava nessa época que iria
dar um dia aula de yôga e eu já estou nesse espaço 33 anos dando aulas.
Como é uma coisa que tem me ajudado, meu esposo disse “por que não se
compartilha com outras pessoas que precisam também, como você
precisou?”. Aí veio a ideia de ensinar.
As pessoas procuram mais o Yôga por quais motivos?
Em grande parte é pelo estresse, estresse já externo, às vezes até no
nível pessoal, com problemas familiares, o cansaço do dia-a-dia e o
próprio ambiente também. Esta violência que a gente vê todos os dias, em
todos os lugares, o que ouve, o que lê, junto com tudo isso, posso
dizer que o estresse é o principal motivo que traz as pessoas mais para
Yôga. Porque existem tantas modalidades para trabalhar o corpo –
musculação, aeróbica, ginástica – e tantas outras coisas, como o
esporte, mas todo esse trabalho a gente vê que é importante, tem os seus
benefícios no nível físico, mas não tem no nível mental como o yôga
tem. Então, muitas pessoas vêm para a parte de relaxamento, para
aprender a dormir melhor, para diminuir problemas de coluna, para
melhorar a postura. Não só pessoas de idade, mas os jovens também hoje
chegam todos enrolados, então existem problemas de diversas naturezas,
mas, em princípio, o estresse é que está causando mais problemas no
dia-a-dia. Yôga é procurado não só para o físico, como também para
problemas dessa natureza psicossomática.
É indicado para qualquer idade?
A gente tinha turmas para crianças a partir de sete anos, só que
alguns exercícios nessa idade não fazem até chegar à puberdade, porque
mexe também no nível hormonal. Então, a partir de sete até mais velho. A
gente tem uma aluna que vai fazer 92 anos, próximo mês (outubro), e se
você vir a postura, a cabeça dela, ela está aqui 16 anos sem faltar, na
prática constante. Começou a primeira vez com 75 anos de idade. Achei
muito corajosa para começar uma coisa nova nessa idade. É uma pessoa
lúcida e exemplo para muitas outras pessoas.
Tem mais homens ou mulheres?
No começo, isso já faz 33 anos, tinha mais mulheres e muito poucos
homens nessa época. Até algumas turmas eram mais mulheres e chegava um
ou outro homem que diziam “homem também pratica yôga”. Porque a gente vê
aí todas as culturas, principalmente aqui, o homem como se não pudesse
mostrar que está triste, fraco, porque é homem. Mas essa mentalidade
está mudando, posso dizer que hoje são 40% homens e 60% mulheres, mas
tinha época que era 20% homem e 80% mulher, essa diferença está bem
pequena. A gente vê que até a mentalidade do homem está mudando, não era
mais o homem de 60 anos atrás, então eles estão aceitando mais que
homem também chora.
Com que frequência deve ser praticado?
O ideal é que sejam poucos minutos todos os dias. Do jeito que a
gente faz o resto, todo dia toma banho, alimenta-se, dorme, a intenção
seria essa prática regular que ajuda para manter o bem estar, mas aqui
como as pessoas não têm muito tempo, a maioria vem fazer duas vezes por
semana, tem exceções que fazem só uma vez. Agora, assim, recomendamos
para eles que a aula normal é 1h15min, mas em casa, de acordo com a
necessidade, a gente orienta que eles podem fazer 10min, 15min ou 30min,
mas cada um tem que ver o que precisa mais.
O que muda na vida de quem pratica yôga?
As mudanças são incríveis. Primeiro com os benefícios no nível
físico. Se a pessoa tem prisão de ventre, prisão de gases, problema de
postura, dores nas juntas, dor de cabeça, insônia, gastrite, ulcera e
várias outras coisas da natureza que a gente vê que o ser humano sofre.
Então, os primeiros sinais que podemos perceber é nesse nível mais
físico, até o respirar direito. Melhorando esse lado, a gente vê também
que, através da prática de yôga, melhora o lado emocional. Se a pessoa
está preocupada emocionalmente, está com alguns problemas, vai
adquirindo mais equilíbrio nesse nível. Com esse trabalho de relaxamento
profundo, relaxa não só o corpo, mas também no nível mental. Então,
você percebe os benefícios no nível físico, no emocional, no mental e
mais ainda, como eu já comentei, faço trabalhos voluntários depois que
entrei no yôga, hoje eu tenho quatro ou cinco lugares onde dou apoio,
ajudo fisicamente e eu tenho várias pessoas que ajudam também em algumas
escolas. Então, a gente pode dizer que há mudança também no nível
pessoal. Além do físico, emocional e mental, a gente percebe que tudo
que a gente sabe é muito bom quando a gente aprende a compartilhar ou
aprender a servir, a ajudar o outro. Mas isso eu só posso fazer se eu
estou bem comigo mesma, então o trabalho começa no nível pessoal até que
aos poucos a gente vai entendendo mais no nível social.
Que atividades podem ser feitas em casa ou no trabalho com pouco tempo?
Eu dei, já duas vezes, um workshop para executivos. Então, nesse
workshop eu falei, como eles têm pouco tempo, o que eles podem fazer nos
pequenos intervalos, na hora do coffee breake. Eu falei para os
médicos, que estão esperando os pacientes, em vez de ficar tenso,
olhando para o relógio, podem fazer uns movimentos com a cabeça, ombro,
mão, braços, pernas e respiração. Então, são várias coisas que eu
mostrei como eles podem fazer sem trocar de roupa, sem botar tapetinho
no chão.
Se você fosse resumir, em uma frase, o que é o yôga?
Hoje, eu posso dizer que, para mim, yôga é o caminho de autoconhecimento.