Para conquistar a admiração do meu chefe ou bônus financeiros no final do mês, estou sobrevoando a cidade de Fortaleza com o helicóptero fornecido pela empresa para que, no final da tarde, eu possa relatar a sua situação atual nas páginas do jornal.
Algumas horas, apenas, são necessárias para a inspeção, afinal, estão visíveis os desastres causados pela chuva matinal.
A água, provavelmente contaminada, transborda nas ruas invadindo casas, destruindo lares, tornando carros em navios em alto mar e cidadãos em náufragos em seus condomínios. Corajosos trabalhadores aventuram-se a ir ao trabalho por receio de perderem o seu único meio de sustento financeiro; mães preocupam-se por seus filhos não poderem ir a um dia produtivo na escola, enquanto estes pulam em suas camas por conseguirem uma manhã inteira para assistir a desenhos na televisão.
Em um dos apartamentos, vi uma bela garotinha que, após ir a sua janela, encaminhou-se para sua cama com um sorriso nos lábios, possivelmente devia estar satisfeita em poder dormir novamente sentindo o frescor de um tempo ainda nublado, enquanto a menina, localizada na periferia, chora assustada em ver sua moradia destruída.
Avistei faces revelando tristeza e desilusão, percebi sonhos e esforços destruídos em minutos pela chuva, lágrimas nos rostos de inocentes crianças ao ver seus brinquedos serem carregados pela correnteza decorrente da chuva e corpos, agora sem almas, em ruínas de casas e estabelecimentos esperando a sua decomposição.
Embora quisesse auxiliar e fornecer suprimentos ou atenção, não posso amparar as dores e angústias no momento, pois demorei a observar a cidade e tenho medo de não escrever a matéria até antes do pôr-do-sol.