Por trás de dois carros fúnebres, há mais do que histórias de enterros, lágrimas e luto. Existem ainda novas e boas lembranças, homenagens e, por que não, também risosA ocasião do Dia dos Finados pede uma matéria especial às páginas do caderno Automóvel. Nada de flores ou velas, o assunto agora são os quase octogenários carros funerários que estacionam história e pomposidade no Museu do Automóvel há mais de duas décadas.
São dois modelos antigos dos anos 30 localizados lado a lado, instigando a curiosidade dos visitantes que passam pelo local. Mesmo sendo de modelos e anos diferentes, tanto o Ford 1933 como o Chevrolet 1934 apresentam características semelhantes em sua carroceria e em seu detalhes.
Segundo Carlos Alfredo Cisne, ex-presidente do Museu e também médico-legista, os veículos não vieram assim de fábrica. Eles foram adquiridos e, em seguida, receberam modificações para caracterizá-los ao estilo fúnebre, por isso têm padrões estéticos parecidos.
Na verdade, ele explica, o que veio das marcas foi somente a caminhonete. Os detalhes, como as penas, ficaram a cargo dos donos dos carros, que encaminhavam para uma firma para suas identificações irem além do extenso tamanho da carroceria.
Para manter no EstadoPara não deixar um pedaço raro do Ceará sair do estado, José Azevedo Sobral, primeiro presidente e também fundador do Museu, prontificou-se em comprar. Os carros já estão em sua posse há, em média, quinze anos.
Histórias no século XXIAs lembranças guardadas em cada caixão transportado já seriam suficientes para tornar esse veículo do início do século passado um objeto memorável. Porém, muitos fatos ocorreram após a sua chegada ao Museu do Automóvel dignos de serem acrescentados as suas histórias.
Mesmo quase cinquenta anos aposentado, recentemente o veículo teve mais um trabalho. Um senhor doente ficou encantado com o automóvel e tinha o sonho de que, quando morresse, o seu caixão fosse conduzido até o túmulo com aquele típico carro funerário. "A família disse que o desejo dele era ser enterrado com uma funerária dessas. Então, falaram com o Sobral e ele concedeu. E o carro ainda foi funcionando", relata Carlos.
O tenebroso também esbarrou nas novidades de ambos os carros. "Um sócio trouxe um cachorrinho aqui e soltou ele no Museu. O cachorro saiu andando. Ele anda de cabeça baixa e, quando chegou em frente a funerária, o cachorro levantou a cabeça e começou a latir, depois saiu correndo", descreve.
Se um carro funerário em si carrega um lado obscuro e misterioso, depois dessa crônica o terror foi agregado com maior intensidade a história do carro. Não tinha pessoa, objeto ou, podemos supor, alma penada por perto que pudesse assustá-lo. Então, a dúvida do susto ainda paira por esses automóveis.
Todavia, não é somente em temas como morte, homenagens, luto e macabro que esses veículos permeiam. Eles também são passíveis de promover sentimentos mais leves e até mesmo românticos.
"Às vezes vêm noivas aqui, que querem casar em um automóvel antigo, e pedem para usar um dos carros daqui. Pois, não veio uma que se engraçou com esse (carro funerário). Ela achou lindo", lembra Carlos.
Realmente, o estilo imponente e as cortinas nas janelas laterais remetem as tradicionais carruagens reais. Infelizmente, ela só reparou nesses detalhes e esqueceu de perceber a sua extensão traseira para comportar um caixão ou, muito menos, as pequenas cruzes que decoram todo o seu entorno.
Os dois carros funerários, depois do último serviço no ano passado com um deles, pararam de rodar. Porém, o contato diário com os mais de sessenta e cinco sócios ativos do Museu do Automóvel, além do público de turistas, interessados em veículos e grupos de escolas que visitam o espaço, não permitem que a sua história e recordações fiquem parados no tempo.
Há 30 anos em FortalezaO Museu do Automóvel já está com trinta anos de quilometragem rodada em Fortaleza. A sua inauguração foi no dia 3 de julho de 1981, entretanto, os seus primórdios podem ser encontrados no Clube do Calhambeque, fundado em 20 de abril de 1973, composto por oito integrantes.
Atualmente, são sessenta e cinco sócios que frequentam ativamente os encontros às quartas e aos sábados no Museu, porém nem todos possuem suas raridades automobilísticas expostas no clube. Alguns preferem ter o veículo mais ao seu alcance e usar com maior frequência pelas ruas da capital cearense.
São ao todo cinquenta e cinco carros disponíveis para serem observados e alvos de constantes fotografias.
Para ser digno de merecer um espaço no Museu, a peça de coleção deve ter no mínimo trinta anos. O carro mais antigo do espaço é o Ford T, de 1917.
Quem desejar conferir mais de perto os históricos automóveis que passaram e, por vezes, ainda circulam em Fortaleza, é só visitar o Museu do Automóvel, aberto de terça a domingo, das 9h ao meio dia e das 14h às 17h.
O preço do ingresso é R$ 8,00.
- Diário do Nordeste (Automóvel) -