sexta-feira, 24 de abril de 2009

Quantas horas depois?

Há alguns anos, assisti o longa-metragem "As Horas" (The Hours, 2002), dirigido por Stephen Daldry. Ele descreve um dia no cotidiano de três mulheres distintas, vivendo em diferentes épocas, mas que lidam com o mesmo conflito, a angústia da vida e da morte. Virginia Woolf (Nicole Kidman) esconde-se em suas palavras, Laura (Julianne Moore) ameniza sua melancolia na construção perfeita do seu lar e Clarissa (Meryl Streep) preenche o vazio de sua rotina nos planejamentos de festas e nos cuidados oferecidos ao seu amigo Richard (Ed Harris).

Mesmo ainda lembrando de seu desfecho, das aparências construídas, da fuga da amargura, do desejo em esconder os conflitos pessoais e das indecisões diárias refletidas em flashes, num diálogo profundo entre máscaras e verdades, quando revi o filme exibido ontem no Cineclube Unifor, senti uma agonia inexplicável, nítido pela minha inquietação na cadeira da sala e por minhas unhas roídas.

Assim como Virgínia Woolf disse que "alguém tem que morrer para valorizarem a vida", ao falar do fim trágico de um dos seus personagens em sua obra "Mrs. Dalloway", o filme é significativo para se debater sobre a essência de se viver, para reavaliar a forma como preenchemos nossas horas e como estabelecemos princípios e escolhas que deem sentido diariamente a nossa existência. Não se pode, ou ao menos se consegue, fazer juízos de valor do suicídio ou do abandono de um lar, antes disso, a história provoca e induz a quem assiste a imaginar-se como agiria diante das situações apresentadas. Ele nos mostra sermos todos humanos e, como tais, temos limites, opções e prioridades que permite, às vezes, fugir da razão do habitual.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

O Bem-estar pelo ralo

Toda ação humana é baseada em valores. Cada pessoa estabelece os seus para guiar sua vida, os que preponderaram hoje para mim foram o compromisso e a confiança, na verdade, a ausência deles. Os planos contorceram-se em apenas palavras numa agenda, o estresse sobressaiu a paciência e o arrependimento de ter levantado-me de manhã foi constante.

Máquinas e homem igualaram-se temporariamente hoje para mim, provocaram raiva e a vontade de gritar, ambos abafados pelos meus passos pesados. Horários, datas, oportunidades, desencontros e planejamentos falhos, um desapontamento puro e simples, revertido de desordem e desânimo, fez-me explodir por minutos ao atravessar a porta de meu quarto.

O relógio que não alarmou, a chuva incansável, o tempo que não volta, a satisfação não detalhada, o descaso proeminente, uma visita inesperada e a mente voltada para um futuro abandono. Depois do desabafo, não guardo ressentimentos pelo dia aparentemente perdido, que de seus impasses trouxe-me a presença do meu bem amado por alguns minutos. Talvez o atraso, assim como nos cinco minutos de José de Alencar, tenha mudado completamente minha vida, de tal forma que eu nem posso imaginar.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Reunidos por amor ou por obrigação?

Religião é um assunto banido de minhas conversas. Ela gera intrigas, discórdias e é raro haver consenso, principalmente, pois, embora nos generalizemos católicos, a sua prática se manifesta diferente dependendo das pessoas.

Declaram-me como não católica, bem, se ir à igreja, no mínimo, uma vez na semana, relutante, desejando estar em outro lugar, ficando inquieto no banco, conversando com a pessoa ao lado, com a mente aérea ou até mesmo dormindo durante o sermão é ser católico, então realmente eu não sou. A crença existe em mim, a prática dos mandamentos é seguida e faço orações pessoais em casa, porém não vou à igreja semanalmente ou confesso os meus pecados ao padre. Prefiro ir quando a vontade desperta ou quando eu sinto necessidade ter um contato maior com minha fé. Acredito, assim, não vincular a religião a uma obrigação, a mais uma atividade rotineira deste mundo capitalista e, sim, a uma escolha, a algo que está sempre perto de mim.

Nas últimas missas frequentadas, pude perceber o mecanicismo das ações dos ali presentes, da exalação de desânimo em algumas pessoas e na transformação do local da celebração eucarística em parque infantil. Sinceramente, devemos seguir a condição indicada de ir à igreja semanalmente mesmo não desejando, ao invés de irmos quando sentirmos vontade? Deus não é onipresente? Não pode nos escutar de onde estivermos? Então, qual o problema de cada um manter sua fé no interior de sua alma sem precisar desse contrato rígido e sem contra-argumentos, se isso não interfere na prática cristã?

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Redimindo-me

Depois de treze dias relapsa ao meu blog, retorno como um bom filho volta sempre ao lar e redimo-me da falta de atualizações. Não foi por falta de assunto que não escrevi e, sim, de tempo. Então, vou aproveitar o feriado desta sexta-feira santa e retomar minhas atividades.

Tantas experiências e emoções do final do mês de março até hoje. Fui convocada de última hora para entrevistar Luana Piovani na sua vinda a Fortaleza para apresentar a peça "Pássaros da noite" no Teatro Celina Queiroz. Não sabia se o nervosismo era decorrente do convite inesperado ou da fama aparente de Piovani ser grosseira com jornalistas, mas mesmo assim retoquei a ínfima maquiagem de minha face, peguei algumas informações que seriam úteis depois e respirei fundo.

Acompanhada de mais três estagiárias do Labjor, entrevistei em tempo recorde e surpreendi-me em frações de segundos com as atitudes de Piovani. Ela foi completamente simpática e recebeu-nos sem conhecimento prévio das perguntas que seriam realizadas e necessitando já se preparar para a peça. Gaguejei um pouco, confesso, entretanto, relevei, pois formulei a maioria das perguntas na hora e minha mente estava um caos com tantas informações e sentimentos rondando a minha sanidade.

Na terça-feira, 07, tive a oportunidade de assistir a quatro desfiles do Dragão Fashion Brasil 2009. Uma loucura é como posso definir. A correria intensa de fotógrafos, imprensa e frequentadores de uma estação para outra; diferentes estilos de roupa, de gêneros e humores; mostras de vestes usáveis no dia-a-dia e criações incompreensíveis e adequadas apenas aos olhos em um desfile. Assimilei como um festival de dança. Modelos ensaiados aos compassos da música, o design das roupas combinando com a iluminação e o ritmo da trilha sonora e o ataque dos diversos flashes de quem aprecia os poucos minutos de apresentação.

Muitas ofertas, convites e oportunidades. Além da felicidade intensa e do estresse querendo se revelar em momentos de pura pressão, estou aproveitando cada segundo de meus dias. Projetos, sim, tenho milhares, e por mais que reclame, sobrecarregue-me e fique ansiosa até ver os resultados, não consigo parar. E o que me vem a mente: "por que não?", afinal, o céu é o limite.



¹Foto por Millene Haeer
²Foto por Camiℓa Oℓiveira

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Encontro com Piovani

Luana Piovani, após ter se apresentado no Rio de Janeiro, Campo Grande, Manaus e São Caetano do Sul, chegou a Fortaleza no último fim de semana de março com o seu monólogo “Pássaro da noite” , de José Antônio de Souza. A peça é sobre uma mulher que, depois de uma noite de festa, se vê diante de indagações nunca experimentadas, levando a perguntas do estilo “Quem sou?”.Luana, minutos antes de sua apresentação da sexta-feira, 27, conversou com a equipe do Labjor e falou como foi a sua reação por encarar o palco sozinha, quais são os seus projetos e outras curiosidades.

Veja a entrevista na íntegra a seguir.

Labjor: Como se deu a construção do seu personagem?

Luana: Às vezes, tem personagens que não requerem muita composição, na verdade. Eu sei que é uma curiosidade das pessoas, mas o trabalho em si, o ensaio em si, acaba te trazendo muito próximo da personagem. Você se relaciona com o texto, com o que ele está contando e a personagem, enfim, aparece para você. Eu tive dois meses de ensaio, tive direção de movimento, aula de fono, mas não teve necessariamente uma composição.

Labjor: Você se utiliza alguma vez da improvisação ou você segue somente o texto?

Luana: Não, não tem como improvisar, porque esse texto é rimado e não rimado, então ele fica variando entre partes rimadas e partes não. Então, assim, não tem como mexer nele.

Labjor: Já foi um projeto imposto para você ou foi feito em conjunto com o autor?

Luana: Não, esse texto já existe há dez anos.

Labjor: Mas não teve nenhuma adaptação?

Luana: Não, ele é texto original. Não teve adaptação nenhuma.

Labjor: Como é que está sendo a aceitação? Vocês já passaram por quantas cidades?

Luana: Aqui é a quarta. Está sendo muito bom, as pessoas sempre se surpreendem muito com a peça, com o texto. As pessoas não vêm imaginando o que ela vai dizer e elas se surpreendem. É bom ver a cara de surpresa das pessoas.

Labjor: Vai para quantas cidades ainda mais?

Luana: Pois é, vamos para muitas, só que eu estou indo para Nova Iorque passar um tempo, fazer umas aulas de teatro. Faz tempo que eu não dou uma reciclada, então vou passar uns meses lá. Daí, a gente volta em junho/julho, e continua a turnê.

Labjor: O que você acha que mais atrai o público à peça? Porque você disse que foi algo mais do que inesperado a reação.

Luana: Acho que a ousadia dela. As pessoas gostam da ousadia dela.

Labjor: O ator acaba dando um pouco da sua personalidade para o personagem, então tem alguma coisa em você que você colocou no personagem?

Luana: Não exatamente. Nós somos bem diferentes uma da outra, mas acho que tem uma coisa nela com a qual eu me identifico – na verdade, ela é bem mais radical do que eu -, ela não liga para julgamentos alheios.

Labjor: Essa ideia do monólogo é uma coisa nova para você? Como você se viu diante disso?

Luana: Com medo, mas, na verdade, se você souber usufruir do medo, você faz com que ele faça com que você caminhe, vá adiante. Então, era isso, não adiantava eu ter medo que o dia da estreia ia chegar, eu ia ter que fazer, então era bom que eu estudasse bastante, que eu decorasse logo o texto e que eu fizesse bem os ensaios.

Labjor: É uma coisa que você espera fazer de novo? Gostou da experiência?

Luana: Gostei, gostei. Mas, não consigo imaginar ainda outro monólogo. Eu estou sentindo falta de gente no palco.

Labjor: O teu público infantil, como é o teu relacionamento, porque foram duas peças infantis. Como é que funciona a sua relação com as crianças?

Luana: Na verdade, eu me relaciono mais com as crianças do que com o público adulto, porque depois das peças, só em turnê que não dá para fazer isso, mas quando eu estou com uma peça em cartaz no Rio ou em São Paulo, eu recebo as crianças depois da peça. Então, é muito legal, porque eu sei exatamente o que elas acharam, o que elas gostaram, o que elas não gostaram. E, na peça adulta eu não faço isso, claro que eu falo com quem fica esperando depois, mas eu não recebo todas.

Labjor: Você tem alguma superstição quando entra no palco? Ou tem algum ritual muito específico seu?

Luana: A primeira vez que eu piso no palco, eu piso com o pé direito. Ah, ritual não exatamente. Eu peço a inspiração do espírito santo. Minha mãe me ensinou que o Espírito Santo dá o dom da palavra, então eu peço que o espírito santo me inspire.

Labjor: Tem algum projeto que você pretende fazer?

Luana: Agora, este ano, vão estrear três filmes que eu fiz ano passado. Agora em junho, estreia “Mulher invisível”, daí em outubro “Família vende tudo” e, em dezembro, “Insônia”. Mas, de projeto meu mesmo, só o “Soldadinho e a bailarina”.

Labjor: Qual foi o personagem que você mais gostou?

Luana: É difícil dizer isso, porque a gente acaba gostando mais do que está fazendo agora.

Labjor: A cada personagem você muda tanto sua aparência, como tem que incorporar o personagem, como você encara essa mudança?

Luana: É bom mudar, então é bom você se olhar e se ver com outra cara, em outra cidade, dizendo outras coisas, é bom.

Labjor: Está conhecendo Fortaleza? Já tinha vindo outras vezes?

Luana: Já vim para cá muitas vezes.

Labjor: Como está a sua programação? Luana: Cheguei hoje. Na verdade não descansei, porque peguei um voo de Recife para cá, hoje, muito cedo, mas eu estou esperando que faça sol esse final de semana para eu fritar, para eu me jogar naquele Beach Park, pegar aquelas boias todas e ficar escorregando.

Veja a matéria no Blog do Labjor
 
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