O bate-papo Labjor: Durante a montagem, como autora da peça, sentiu necessidade de modificar o texto no decorrer dos ensaios?Lúcia: Não. A gente fez alguns cortes, porque eu tenho um vício da televisão. Na televisão, você tem que repetir muitas vezes, porque a ideia é você conquistar um telespectador por dia. Então, você tem que repetir as mesmas coisas todos os dias, de formas diferentes, porque você não sabe se vai ter alguém novo assistindo. Então, eu usei um pouco desse artifício no Usufruto e a gente fez algumas limpezas, mas foram poucas coisas na verdade.
Labjor: Como autora, você interferiu na direção de José Possi?Lúcia: Não, não. E nem acho que teria sido correto. Como atriz, todas as vezes que trabalhei com um autor brasileiro, eu sempre pedia “ai Meu Deus do céu, por que eu não escolhi um autor morto?”, porque autor é um bicho muito chato. Ele acaba se metendo nas coisas e eu não acho isso bacana. Eu, como autora, confiei a direção ao José Possi Neto e eu tive que entregar, completamente. Ele era o maestro dessa partitura. Eu tive que esquecer que era a autora e trabalhar como atriz dentro dessa partitura.
Labjor: Na opinião de vocês, o enredo, as discussões e os diálogos seriam os mesmos caso fosse um homem de 50 e uma mulher de 30 e poucos anos?Lúcia: Não, definitivamente não.
Labjor: Mesmo se mantivesse o conservadorismo do personagem e só mudasse as idades? Lúcia: Não, de forma nenhuma. O homem e a mulher têm um diferente modo de “aproach”. Não seria o mesmo. Você não acha, Raphael?
Raphael: Eu acho, até aquilo que você fala na questão da maturidade. São maturidades diferentes.
Lúcia: Porque durante o espetáculo, ela (a personagem) fala que as mulheres são mais maduras do que os homens, o que eu acho até legal. O homem amadurece de uma forma diferente da mulher. Primeiro mais adiante e depois de uma forma diferente. O homem, na verdade, sempre sucumbe a mulher. A mulher é mais forte nesse sentido, ela tem um foco mais preciso.
Labjor: Queria saber o que mudou da atriz da peça Natal, de 1964, para agora, na forma de interpretar, dos pensamentos?Lúcia: Nossa Senhora! Em primeiro lugar, lá se vão 46 anos, 45 anos. Eu cresci um pouco mais, eu era desse tamanho e agora tenho 1.73m. Isso já mudou. Quer dizer, mudou tudo, da atriz de quatro anos pra cá, da atriz de hoje pra daqui a quatro anos. Espero que sempre mude, que eu esteja atenta a investir cada vez mais nas mudanças positivas da profissão. É uma profissão que depende exclusivamente de sempre estar atuando, sempre estar exercitando. Essa é uma profissão que só o exercício dela te faz melhor. Então você só vai melhorando com o tempo, se você tá aplicando isso com todo seu fervor, toda sua crença, você vai melhorar. Eu acho que estou muito distante de todos os personagens que eu fiz durante a minha vida inteira ao longo desses 40 anos de vida profissional.
Labjor: Vocês improvisam?Lúcia: Ontem eu errei muito. Às vezes, dá uma desconcentrada em alguma coisa. Então eu errei algumas coisas e tive que improvisar. Mas para eu improvisar nesse texto é muito mais fácil porque eu afinal de contas escrevi o texto, eu sei o que quero dizer. Mas eu não gosto, saí muito chateada. Se pudesse, eu me colocaria de castigo. Acho horrível um ator que não respeita o texto, que não faz corretamente e eu não gosto de ser assim. Não gosto de ser dessa forma de ficar inventando coisa quando já está escrito.
Raphael: E é um espetáculo que não tem galhofa, essa coisa de você criar uma situação para tirar uma risada da plateia. É um embate de ideias, então, quanto mais a gente seguir o que já tá proposto, mais a gente vai tá ganhando com isso.
Lúcia: Concordo plenamente com o Raphael. É um espetáculo que expõe as suas ideias muito claramente. Então, se a gente ficar querendo colocar coisas que não estão naquele contexto vai esvaziar o que é o principal. Outro dia… Tem situações que às vezes a gente é obrigada a improvisar. A gente pede milhões de vezes para que desliguem rádio, telefones celulares, relógio. Eu detesto (relógio), eu me desconcentro enormemente, mas do que com celular. Um celular começou a tocar, depois de todos os avisos. E tocou a primeira, a segunda, a terceira, a quarta e eu vi que o cara não ia desligar, provavelmente devia estar com vergonha de mostrar que era o tal, aí eu falei para o Raphael: “vem cá, esse celular que está tocando é o seu?”. Que dizer, era uma coisa que não existia. E ele rapidamente foi até o paletó dele, que ele já tinha tirado, e disse “não, o meu nã é”. E eu “engraçado”. O apartamento vazio, só nós dois e está tocando um celular, ou é meu ou é o dele. Aí a pessoa se tocou e desligou o telefone. Essa foi uma situação atípica, mas cabe uma coisa dessa. Acho que ele (Raphael) teria a mesma reação. Pois como estava na minha fala e o cara não desligava, eu falei, mas eu acho que ele falaria a mesma coisa. A gente já está numa ligação tão grande que passou absolutamente natural. Ele levantou naturalmente e foi olhar se tava com o telefone desligado ou não. A gente tem uma ligação muito forte em cena. Engraçado que todos os meus espetáculos no teatro até agora eu sempre tive uma comunicação com a plateia muito grande. Eu sempre gostei de estar em comunicação com a plateia. Então, eu busco pessoas, olhares e contraceno falando com aquela pessoa, eu brinco e faço piada. Nesse espetáculo eu não consigo. Até nos momentos em que o diretor me pediu que eu contracenasse com a plateia diretamente, eu tenho dificuldade. É um espetáculo que sempre é tão fechado que eu só tenho vontade de contracenar com o Raphael, porque é só ali, só nós dois. Pela primeira vez, eu não consigo olhar para alguém da plateia porque, se eu olho, eu sinto que eu estou perdendo a gente, entendeu? É como se eu tivesse traindo, é engraçado. É a primeira vez que eu conto isso.
Labjor: Quais são os destinos além do tradicional eixo Rio-São Paulo – além de Fortaleza, para onde mais vocês irão?Raphael: Nós já estivemos em Angra, Vila Velha.. Estamos fazendo a temporada em São Paulo. Ainda vamos pra Santos, São Caetano…
Lúcia: Guarulhos, São José da Boa Vista, Poços de Caldas, Salvador… Ih, são tantos lugares. É um processo inédito no teatro brasileiro que é fazer um espetáculo simultaneamente num grande centro – quartas e quintas em São Paulo, e sexta, sábado e domingo trabalhando sempre.
Labjor: Vocês acham isso melhor? Quer dizer, não cansa muito?Lúcia: Evidente que cansa.
Raphael: Mas a gente atinge um público, num curto espaço de tempo, bem maior.
Lúcia: E também você experimenta o espetáculo de várias formas, porque cada público é muito diferente do outro. E o público de São Paulo é o público de São Paulo, o público de Fortaleza é o público de Fortaleza. Então, você está experimentando, na mesma semana, públicos tão distintos e é engraçado. No mês de março a gente vai está fazendo sexta em uma cidade, sábado em outra e domingo em outra. Aí vai ser uma loucura.
Labjor: Eu li que você já tem outros projetos e eu quero saber se é como atriz, como autora e atriz, se é uma peça.Lúcia: Olha, eu agora não estou pensando em nada mais… Eu não tenho tempo pra nada. Eu acordo e produzo, produzo, produzo, faço o espetáculo, saio de lá, continuo produzindo, produzindo, produzindo. Estou dormindo quase nada, me alimentando muito mal, vivo com asma. Mas estou muito feliz de poder estar fazendo Usufruto dessa forma, muito contente mesmo, e eu não quero pensar em outra coisa por um bom tempo. Não sei o Raphael, mas acho que ele também não vai ter tempo de pensar em outra coisa não.
Raphael: Tem uma vantagem disso também que, às vezes, você sabe que tem um espetáculo que tá em cartaz em São Paulo e pensa: “Poxa, tô tão longe de São Paulo e vou ter que ir até lá. Quando será que vem pra cá?” E essa é uma oportunidade de a gente estar viajando o Brasil todo.
Lúcia: É, e isso dá a oportunidade de a gente voltar daqui a pouco, porque a gente tem recebido uma resposta tão positiva do espetáculo que fazer três dias num lugar realmente é pouco. A gente lota sempre, graças a Deus, as pessoas voltam pra ver o espetáculo, pessoas que foram na sexta e voltam no sábado, que foram no sábado e voltam no domingo. A gente tá tendo de 15 a 22% de volta no dia seguinte. E isso é incrível, então, é bom pra gente voltar daqui a pouco pra Fortaleza de novo e fazer isso com o espetáculo.
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