Aprender a dirigir não se limita às autoescolas, o resultado disso são as mais de 9 mil infrações registradas só neste ano
Nas turmas de Centro de Formação de Condutores (CFCs), antigamente conhecidos como autoescolas, os inscritos supostamente deveriam ter contato pela primeira vez com a teoria e prática da condução de um veículo. No entanto, não é isso que normalmente acontece.
No primeiro dia de aula de legislação, o professor pergunta quem já sabe dirigir. Alguns confessam sem nenhum medo, outros preferem esconder a informação. Segundo César Carrico, que há quinze anos está no mercado de formação de condutores, 50% dos seus alunos na capital dirigem ou já dirigiram sem ter a CNH. Quando a realidade é no interior, a porcentagem sobe para noventa do total e grande parte desses motoristas são de motocicletas.
A justificativa sempre permeia a necessidade de mobilidade. É o caso da jovem Janaína (nome fictício) de 21 anos que há quase dois anos segue na direção do seu próprio carro.
Na realidade, ela aprendeu a dirigir com 14 anos com um antigo namorado, mas somente agora sentiu precisão de utilizar a habilidade aprendida. "O que me leva a dirigir é porque eu trabalho e tenho que ir fazer o curso (de autoescola). Então, pelo período que eu saio, não tem condições de eu chegar a tempo da aula", explica.
São vários na multidãoTambém em condições de irregularidades está o seu colega de CFC Roberto (nome fictício). Com 38 anos, há dez anos ele segue pelas vias de Fortaleza montado em sua motocicleta. Por ser eletricista, ele afirma que, além do ônibus demorar muito para seguir o seu caminho, carregar suas ferramentas no transporte público é muito complicado. Além disso, segundo ele, compensava e era mais fácil usar o seu dinheiro para comprar um moto do que pagar pelo processo de tirar habilitação.
O que contribuiu ainda com seu comportamento era que, de acordo com o Roberto, antigamente era mais fácil driblar a fiscalização. Todavia, ela anda cada vez mais acirrada. Ele nunca foi flagrado, mas ultimamente tem sido por pouco. "Segunda mesmo eu consegui fugir de duas blitz", confessa.
Embora tenha medo de ser pego, ainda continua dirigindo e tentando seguir pelas vias na hora de maior tráfego para diminuir o perigo do flagra. "O horário de pico é mais difícil ter blitz, porque teria que parar o fluxo e isso atrapalharia o trânsito", afirma.
Ainda como medida de segurança, resolveu finalmente tirar a sua carteira na categoria A. "Agora vale mais a pena pagar a aula do que a (provável) multa", pontifica.
Porém, nem todos pensam assim. O próprio Roberto conhece dois amigos que dirigem há anos sem ser pego ou ao menos com planos de tirar a CNH: um conduz um carro há 25 anos e outro uma moto há 12 anos.
Prática atrapalha
Erra quem pensa que ter experiência na direção garante vantagens na prova prática do Departamento Estadual de Trânsito do Estado do Ceará (Detran-CE).
De acordo com César, a autoconfiança por já ter dirigido anteriormente ofusca os ensinamentos oferecidos nas aulas práticas. O resultado disso é não perceber algumas "pegadinhas" que os instrutores fazem, como o candidato não notar que o seu avaliador está sem cinto de segurança ao seu lado ou seguir exatamente o que lhe foi mandado sem prestar atenção a via percorrida ou aos sinais de trânsito antes.
Além disso, quem já conduz um veículo acaba adquirindo algumas manias consideradas inadequadas pelo Detran, como não segurar o volante com as duas mãos, ficar com o pé na embreagem ou andar no ponto morto. Por mais que a pessoa tente controlar, pode esquecer e por vezes repetir o erro. "O vício é mais difícil do que ensinar a pessoa a dirigir", acrescenta César.
E continuam contando
Cresce de forma expressiva o número de infrações por condutores não habilitados. Em menos de dois meses, as 6.572 multas registradas até setembro foram somadas com mais 2.604 até 11 de novembro.
Em sua maioria, são flagrados motociclistas, quase 70% dos veículos parados. O perfil dos infratores, de acordo com o Detran-CE, contempla mais jovens da faixa etária de vinte a trinta anos, que representa 75% dos multados.
O número já ultrapassou os dados dos últimos três anos e ainda não para de aumentar. No último fim de semana, que contou com operações extras devido à época de férias, foram registrados mais 240 infrações desse nível.
Mesmo com o aumento significante, o ranking de infrações continua intacto. Segundo o Detran-CE, quem ainda mantém-se em primeiro é a condução de motocicleta sem capacete, que acrescentou 5.481 multas aplicadas desde o último registro datado em setembro. No período natalino, foram flagrados mais 434 motoristas.
Punição
A infração por dirigir sem habilitação ou Permissão Para Dirigir (PPD) é considerada gravíssima pelo Código de Trânsito Brasileiro. A penalidade prevista é uma multa de R$574,62, além da apreensão do veículo.
NÚMERO
50% dos alunos que estão tirando pela primeira vez a habilitação dirigem ou já dirigiram sem a carteira de motorista, segundo professor de CFC César Carrico.
Top 5 da infração
A ordem das infrações são as mesmas desde setembro; a mudança está no aumento relevante dos dados em menos de dois meses.
1º Conduzir motocicleta sem usar capacete: 20.511 (15.030 de janeiro a setembro)
2º Conduzir veículo não licenciado: 12.302 (9.528 de janeiro a setembro)
3º Conduzir veículo não habilitado: 9.176 (6.572 de janeiro a setembro)
4º Conduzir veículo sem cinto de segurança: 7.752 (6.384 de janeiro a setembro)
5º Lei Seca: 3.699 (1.985 de janeiro a setembro)
- Diário do Nordeste (Auto) -






















